sexta-feira, 21 de outubro de 2022

IN MEMORIAN

 


O dia dos poetas

Termina com interrogações pertinentes

Com vazios intermináveis

Cadê João Rosa?

Cadê José Levindo?

Hilda Mendonça, cadê?

O Coronel, cadê?

Cinzas de poesia

Foram lançadas no mar da saudade,

Mais uma vez!


O CENTRO

 

Na selva da estranheza, tudo o que for bizarro terá a mesma dimensão do que for apenas diferente, visto de nosso ponto de vista. No meio do zoológico humano, cabem todas as formas animais e todos os animais humanizados. Tudo será produzido e entregue aos outros pelo lugar da fala, enquanto comunicação de resistência. Tem gente maluca, tem gente fora da curva. Tem gente excêntrica, tem gente fora dos padrões. Tem gente disfuncional, tem gente ocasional. Tem gente contraditória, tem gente impossível. Não se pode afirmar que são gente como a gente, mas são gente. Todas elas possuem um centro, um ponto de comunalidades, chamado palavra. O que difere cada uma destas gentes é apenas o uso da fala, o instrumento de resistência para quem ainda não encontrou seu lugar ao sol, mas também não desistiu de procurar. Nosso centro está na fala.


OS FLUXOS INTENSOS

 

Aprendemos desde a infância que, para termos autonomia, precisamos controlar todas as varáveis do ambiente em que estivermos inseridos. Desde o “meu" brinquedo, “eu quero vestir esta camiseta”, “agora não”, passando da vontade aos desejos, do egoísmo às trocas lucrativas, “ou é do meu jeito ou não tem conversa”, somos treinados a funcionar em razão dos benefícios. Acreditamos que tudo podemos, não havendo limites para brigar por nossos sonhos e caprichos. Nem tudo, porém, acontece como desejamos e sentimos frustrados. Paralelamente a tudo isso, existe uma nova percepção de ver o funcionamento das coisas como fluxo ou processos. Ele é muito mais intenso, mais criativo e disponível, consumindo menos energia e produzindo mais resultados certeiros, completamente diferente do que almejamos, mas em sintonia plena com o verdadeiro propósito de nossa existência. Os fluxos se fazem com facilidade, conhecendo melhor do que nós os caminhos a serem percorridos. Se as pessoas soubessem como é bom viver nos fluxos, elas abririam mão de querer controlar tanto e se entregariam ao seu desenvolvimento acelerado.


quinta-feira, 20 de outubro de 2022

RUA DA LUZ

 

Em algum lugar da imaginação, em algum canto do espaço invisível e indivisível, tudo está sendo reorganizado e realinhado na Rua da Luz; ali onde brincamos com crianças rarefeitas, vindas de civilizações raras; ali onde emana a paz onírica do instante eterno, solto no ar, e onde os automóveis deram lugar ao cultivo da realização instantânea de sonhos. A Rua da Luz deveria estar presente em qualquer plano de viagens, nas férias de todos os merecedores de descanso, na prece dos crentes e na anti-prece dos descrentes. Ela não pode ser encontrada por GPS do presente, por mapas do agora, nem por caixeiros viajantes do passado. A Rua da Luz só pode ser vista pelos olhos do coração essencial. Quem a vê, jamais esquece. Quem nela caminha, esqueceu do chão e das asas do avião, mas para se chegar nela, é preciso abrir a noite como se abre uma graviola, um poema, ou um sorriso infantil.

 

 


COMO SE FOSSE UM DESTINO (3)

 

Amar é cumprir o destino de ser semente. O outro, objeto recipiente de nosso amor, é um chão emprestado, podendo ter data de validade, sabendo que estamos em movimento de transformação interna. É este chão emprestado que vai nos pressionar até romper nossa casca para espalhar nossa seiva. Pode até doer, mas vale a pena. Passado este desafio, somos embebidos pela água dos cuidados do outro. Se não tivermos sorte no relacionamento e não formos regados na realização pessoal pelo chão indiferente, podemos contar com a presença de algum jardineiro zeloso que se aproxime e se encante com nossos processos, ou com o milagre das chuvas. Não importa de onde venha a água, o importante é prosseguir a jornada de subir, olhar para o alto por foto centrismo, buscando as reminiscências da luz que permitem romper a superfície. Neste ciclo libertário, geramos folhas vicejantes, registrando atos altruístas pela vida. Quanto mais nos apegamos ao chão, mais raízes construímos, em nome da sobrevivência, enquanto a vida-escola nos ensina o que conseguimos aprender. Silenciosamente acontece o amor próprio, aquela forma de amor pronta para transbordar. Se abandonarmos nossa essência, ocorrerá uma identificação com o “ser a árvore”, quando a vida material nos seduz e perdemos contato com as alturas. Amar é ser semente.

 


quarta-feira, 19 de outubro de 2022

COMO SE FOSSE UM DESTINO (2)

 

Destino não é um certificado de sucesso, ou o encontro de um grande amor que não se resume nem pode no primeiro encontro, ou a posse de algo material, nem um roteiro de filme criado por Deus. Ele é o resultado de nossas escolhas, misturadas com as crenças que vem depois. A maioria das escolhas são feitas precipitadamente pelas decisões tomadas na primeira infância, arrastadas pela vida afora, acrescidas de condicionamentos familiares, podadas ou arrancadas pelas circunstâncias e pelas interações sociais, ou seja, por nossas experiências que se transformam em crenças. Depois de traduzidas pelo ego, pela razão, pela criança interior e pela mente inconsciente, nossas escolhas viram ação e reação, ação e provocação, ação e cobrança, ação e separação. Não existe destino sem escolhas e crenças. Saiba disso. Saiba também que não conseguimos comer açúcar na mesma quantidade de comida salgada, por isso escolhemos coisas amargas, aquelas que nos dão gastura e trabalho para digerir, dando-nos a falsa impressão de que escolher é difícil, mas não é.


terça-feira, 18 de outubro de 2022

COMO SE FOSSE UM DESTINO (1)

 

“Vai, filha, já lhe dei meu útero, seu corpo e a alma, o restinho é para você conquistar e concluir esta tarefa de estar viva. O resto, embora pareça descartável ou desimportante, encerra a cereja do bolo, deliciosa e cobiçada por muitos. Caberá a si, escolher ou se adaptar. Caberá a si, cair e se levantar, distribuir permissões ou sofrer intromissões, ser livre de si ou ser posse de alguém. Muitos chegarão na casa de seu coração, sem trazer qualquer significância; outros arrancarão lágrimas de seu rosto com a mesma frieza com que o serralheiro corta a árvore com motosserra. Muitos dirão que você é árvore, fuja deles. Você é semente, mas sofrerá um pouquinho, antes de romper a superfície da terra que a germinar. Se acaso mais tarde virar árvore, saiba que sua vida acabou, pois vida é destinação e não o destino em si”.


segunda-feira, 17 de outubro de 2022

OUTONOS OUTROS

 

Mais um outono distante de meu olhar. Um parque situa-se no quintal de minha casa em Toronto, por onde atravessei dias e décadas, ora divertindo-me com os esquilos, ora escutando as palavrinhas sábias dos alunos de prezinho que por ali brincam; ora recebendo músicas inéditas do teto de inspiração do inconsciente coletivo, ora agradecendo ao nosso Pai pelo exercício de estar vivo e feliz. Aquele chão me conhece de cor e salteado, em cada estação que o cobre e abençoa durante os anos, em cada ruído silencioso das pisadas na neve acumulada, em cada suor de verão que ali me recebia com luz, dizendo: “lá vem o Brasileiro mais Canadense de Passos”. Este ano meus olhos físicos não terão o prazer inenarrável de percorrer cada folha multicolorida, de suas árvores poéticas, mas meu olho interior pede desculpas pela distância acontecida. Saudade é um rio vivo que se mistura com o sangue de nossas veias.

 

 


domingo, 16 de outubro de 2022

BIBLIOTERAPIA

 


A poesia é uma bolha no ar e só se rompe quando o indeterminado se encontra com a imaginação. A terapia também flutua no silêncio e só acontece quando o vazio se encontra com a interrogação. O elemento comum entre elas é a palavra. A terapia consiste em criar para viver. A poesia consiste em criar para se ver. A terapia caminha para a solução, a poesia para a dissolução. Quando as duas se encontram, o eu consciente prevalece. A terapia com poesia torna-se avassaladora, extremamente intimista, reinando nas bordas da beleza interior, enquanto percepção cristalina. Quando o Ser escuta o que tem a dizer, o Ser faz da Biblioterapia um objeto de transcendência e, pela primeira vez, sente-se inefável, fluídico, com direito potencial à vida. 

ALMOÇO

 

Enquanto as forças represadas por muito tempo não se exaurirem, ainda que justas ou violentas, não existe mudança significativa, nem ambiente promissor possível de acontecer. O mundo está em ebulição, cozinhando o que conseguiu criar até então, na tentativa de digerir o dragão que gerou. No caldeirão dos acontecimentos mais bizarros, das revelações mais inacreditáveis, das desinformações mais comuns, dos comportamentos mais inconsequentes, das trocas de falas mais destruidoras, das autoridades mais desautorizadas, tudo o que assistirmos de agora em diante virá como cisco nos olhos. As mãos que mexem o cozido são as mesmas que experimentam o tempero e concluem que a refeição está perdida. Vamos ficar sem almoço?