O dia dos poetas
Termina com interrogações
pertinentes
Com vazios intermináveis
Cadê João Rosa?
Cadê José Levindo?
Hilda Mendonça, cadê?
O Coronel, cadê?
Cinzas de poesia
Foram lançadas no mar da
saudade,
Mais uma vez!
O dia dos poetas
Termina com interrogações
pertinentes
Com vazios intermináveis
Cadê João Rosa?
Cadê José Levindo?
Hilda Mendonça, cadê?
O Coronel, cadê?
Cinzas de poesia
Foram lançadas no mar da
saudade,
Mais uma vez!
Na selva da estranheza,
tudo o que for bizarro terá a mesma dimensão do que for apenas diferente, visto
de nosso ponto de vista. No meio do zoológico humano, cabem todas as formas
animais e todos os animais humanizados. Tudo será produzido e entregue aos
outros pelo lugar da fala, enquanto comunicação de resistência. Tem gente
maluca, tem gente fora da curva. Tem gente excêntrica, tem gente fora dos
padrões. Tem gente disfuncional, tem gente ocasional. Tem gente contraditória,
tem gente impossível. Não se pode afirmar que são gente como a gente, mas são
gente. Todas elas possuem um centro, um ponto de comunalidades, chamado
palavra. O que difere cada uma destas gentes é apenas o uso da fala, o
instrumento de resistência para quem ainda não encontrou seu lugar ao sol, mas
também não desistiu de procurar. Nosso centro está na fala.
Aprendemos desde a
infância que, para termos autonomia, precisamos controlar todas as varáveis do
ambiente em que estivermos inseridos. Desde o “meu" brinquedo, “eu quero vestir
esta camiseta”, “agora não”, passando da vontade aos desejos, do egoísmo às trocas
lucrativas, “ou é do meu jeito ou não tem conversa”, somos treinados a
funcionar em razão dos benefícios. Acreditamos que tudo podemos, não havendo
limites para brigar por nossos sonhos e caprichos. Nem tudo, porém, acontece
como desejamos e sentimos frustrados. Paralelamente a tudo isso, existe uma
nova percepção de ver o funcionamento das coisas como fluxo ou processos. Ele é
muito mais intenso, mais criativo e disponível, consumindo menos energia e
produzindo mais resultados certeiros, completamente diferente do que almejamos,
mas em sintonia plena com o verdadeiro propósito de nossa existência. Os fluxos
se fazem com facilidade, conhecendo melhor do que nós os caminhos a serem
percorridos. Se as pessoas soubessem como é bom viver nos fluxos, elas abririam
mão de querer controlar tanto e se entregariam ao seu desenvolvimento
acelerado.
Em algum lugar da
imaginação, em algum canto do espaço invisível e indivisível, tudo está sendo
reorganizado e realinhado na Rua da Luz; ali onde brincamos com crianças
rarefeitas, vindas de civilizações raras; ali onde emana a paz onírica do
instante eterno, solto no ar, e onde os automóveis deram lugar ao cultivo da
realização instantânea de sonhos. A Rua da Luz deveria estar presente em
qualquer plano de viagens, nas férias de todos os merecedores de descanso, na
prece dos crentes e na anti-prece dos descrentes. Ela não pode ser encontrada
por GPS do presente, por mapas do agora, nem por caixeiros viajantes do
passado. A Rua da Luz só pode ser vista pelos olhos do coração essencial. Quem
a vê, jamais esquece. Quem nela caminha, esqueceu do chão e das asas do avião,
mas para se chegar nela, é preciso abrir a noite como se abre uma graviola, um
poema, ou um sorriso infantil.
Amar é cumprir o destino
de ser semente. O outro, objeto recipiente de nosso amor, é um chão emprestado,
podendo ter data de validade, sabendo que estamos em movimento de transformação
interna. É este chão emprestado que vai nos pressionar até romper nossa casca
para espalhar nossa seiva. Pode até doer, mas vale a pena. Passado este
desafio, somos embebidos pela água dos cuidados do outro. Se não tivermos sorte
no relacionamento e não formos regados na realização pessoal pelo chão
indiferente, podemos contar com a presença de algum jardineiro zeloso que se
aproxime e se encante com nossos processos, ou com o milagre das chuvas. Não
importa de onde venha a água, o importante é prosseguir a jornada de subir,
olhar para o alto por foto centrismo, buscando as reminiscências da luz que
permitem romper a superfície. Neste ciclo libertário, geramos folhas vicejantes,
registrando atos altruístas pela vida. Quanto mais nos apegamos ao chão, mais
raízes construímos, em nome da sobrevivência, enquanto a vida-escola nos ensina
o que conseguimos aprender. Silenciosamente acontece o amor próprio, aquela
forma de amor pronta para transbordar. Se abandonarmos nossa essência, ocorrerá
uma identificação com o “ser a árvore”, quando a vida material nos seduz e
perdemos contato com as alturas. Amar é ser semente.
Destino não é um
certificado de sucesso, ou o encontro de um grande amor que não se resume nem
pode no primeiro encontro, ou a posse de algo material, nem um roteiro de filme
criado por Deus. Ele é o resultado de nossas escolhas, misturadas com as
crenças que vem depois. A maioria das escolhas são feitas precipitadamente
pelas decisões tomadas na primeira infância, arrastadas pela vida afora,
acrescidas de condicionamentos familiares, podadas ou arrancadas pelas
circunstâncias e pelas interações sociais, ou seja, por nossas experiências que
se transformam em crenças. Depois de traduzidas pelo ego, pela razão, pela
criança interior e pela mente inconsciente, nossas escolhas viram ação e
reação, ação e provocação, ação e cobrança, ação e separação. Não existe
destino sem escolhas e crenças. Saiba disso. Saiba também que não conseguimos
comer açúcar na mesma quantidade de comida salgada, por isso escolhemos coisas
amargas, aquelas que nos dão gastura e trabalho para digerir, dando-nos a falsa
impressão de que escolher é difícil, mas não é.
“Vai, filha, já lhe dei meu
útero, seu corpo e a alma, o restinho é para você conquistar e concluir esta
tarefa de estar viva. O resto, embora pareça descartável ou desimportante,
encerra a cereja do bolo, deliciosa e cobiçada por muitos. Caberá a si,
escolher ou se adaptar. Caberá a si, cair e se levantar, distribuir permissões
ou sofrer intromissões, ser livre de si ou ser posse de alguém. Muitos chegarão
na casa de seu coração, sem trazer qualquer significância; outros arrancarão
lágrimas de seu rosto com a mesma frieza com que o serralheiro corta a árvore
com motosserra. Muitos dirão que você é árvore, fuja deles. Você é semente, mas
sofrerá um pouquinho, antes de romper a superfície da terra que a germinar. Se
acaso mais tarde virar árvore, saiba que sua vida acabou, pois vida é destinação
e não o destino em si”.
Mais um outono distante de
meu olhar. Um parque situa-se no quintal de minha casa em Toronto, por onde
atravessei dias e décadas, ora divertindo-me com os esquilos, ora escutando as
palavrinhas sábias dos alunos de prezinho que por ali brincam; ora recebendo
músicas inéditas do teto de inspiração do inconsciente coletivo, ora
agradecendo ao nosso Pai pelo exercício de estar vivo e feliz. Aquele chão me
conhece de cor e salteado, em cada estação que o cobre e abençoa durante os
anos, em cada ruído silencioso das pisadas na neve acumulada, em cada suor de
verão que ali me recebia com luz, dizendo: “lá vem o Brasileiro mais Canadense
de Passos”. Este ano meus olhos físicos não terão o prazer inenarrável de
percorrer cada folha multicolorida, de suas árvores poéticas, mas meu olho
interior pede desculpas pela distância acontecida. Saudade é um rio vivo que se
mistura com o sangue de nossas veias.
A poesia é uma bolha no ar e só se rompe quando o indeterminado se encontra com a imaginação. A terapia também flutua no silêncio e só acontece quando o vazio se encontra com a interrogação. O elemento comum entre elas é a palavra. A terapia consiste em criar para viver. A poesia consiste em criar para se ver. A terapia caminha para a solução, a poesia para a dissolução. Quando as duas se encontram, o eu consciente prevalece. A terapia com poesia torna-se avassaladora, extremamente intimista, reinando nas bordas da beleza interior, enquanto percepção cristalina. Quando o Ser escuta o que tem a dizer, o Ser faz da Biblioterapia um objeto de transcendência e, pela primeira vez, sente-se inefável, fluídico, com direito potencial à vida.
Enquanto as forças
represadas por muito tempo não se exaurirem, ainda que justas ou violentas, não
existe mudança significativa, nem ambiente promissor possível de acontecer. O
mundo está em ebulição, cozinhando o que conseguiu criar até então, na
tentativa de digerir o dragão que gerou. No caldeirão dos acontecimentos mais
bizarros, das revelações mais inacreditáveis, das desinformações mais comuns,
dos comportamentos mais inconsequentes, das trocas de falas mais destruidoras,
das autoridades mais desautorizadas, tudo o que assistirmos de agora em diante
virá como cisco nos olhos. As mãos que mexem o cozido são as mesmas que
experimentam o tempero e concluem que a refeição está perdida. Vamos ficar sem
almoço